Na hora de fechar o financiamento, o seguro prestamista aparece na proposta como um item a mais, muitas vezes já marcado. Recusar parece arriscado; aceitar sem olhar encarece o contrato inteiro, porque o prêmio costuma ser financiado junto com o carro.
A decisão fica mais fácil quando se entende o que esse seguro realmente paga, a quem ele paga e em que situações ele não paga nada. Com isso em mãos, dá para comparar o custo com a proteção que você já tem e escolher com critério, sem medo e sem pressa.
Anúncios
O que a apólice protege e quem recebe o dinheiro
O prestamista é um seguro atrelado a uma dívida. Se acontecer um dos eventos previstos, a seguradora paga o saldo devedor do financiamento, ou algumas parcelas, diretamente à financeira. O dinheiro não passa pela família nem pelo segurado.
O efeito prático é que o contrato é quitado, total ou parcialmente, e o carro fica livre da dívida. Em caso de morte, por exemplo, os herdeiros recebem o veículo sem precisar continuar pagando as prestações, o que evita que ele seja vendido às pressas para cobrir o débito.
As coberturas básicas mais comuns são morte e invalidez permanente total causada por acidente. Algumas apólices acrescentam invalidez por doença, perda involuntária de emprego e incapacidade temporária para o trabalho, cada uma com regras próprias.
Anúncios
Repare que o seguro não protege o carro. Batida, roubo, enchente e danos a terceiros ficam de fora, e são temas do seguro auto. Muita gente confunde os dois e acha que, por ter contratado o prestamista, o veículo está coberto, o que não é verdade.
Também não há valor extra para a família. Mesmo que o capital segurado seja maior que o saldo no dia do evento, o pagamento costuma se limitar ao que falta quitar, conforme a forma como a apólice foi desenhada.
Coberturas que dependem do seu tipo de renda
Um mesmo produto pode ser útil para uma pessoa e quase inútil para outra, porque algumas coberturas só funcionam para certos vínculos de trabalho. Esse é o ponto que mais vale conferir antes de aceitar.
A cobertura de desemprego involuntário costuma valer apenas para quem tem carteira assinada e é dispensado sem justa causa, depois de um tempo mínimo no emprego. Pedido de demissão, término de contrato temporário e dispensa durante o período de experiência ficam de fora.
Para autônomos e profissionais liberais, a cobertura equivalente é a de incapacidade física temporária: se um acidente ou uma doença impedir o trabalho, a seguradora paga algumas parcelas enquanto durar o afastamento, dentro de um limite de meses definido na apólice.
Anúncios
Servidores públicos estáveis raramente se beneficiam da cobertura de desemprego, já que a chance de dispensa é baixa. Para eles, o que pesa mais é a proteção por morte ou invalidez.
Se você é autônomo e a proposta traz só desemprego involuntário, ou se tem carteira assinada e a proposta traz só incapacidade temporária, está pagando por algo que provavelmente não vai usar. Peça a versão adequada ao seu perfil ou recuse.
Quanto ele pesa no custo do financiamento
A forma de cobrança mais comum é o prêmio único, calculado sobre o valor financiado e incluído no total da dívida. Isso significa que você paga juros sobre o seguro durante todo o contrato, como se tivesse pegado dinheiro emprestado para comprá-lo.
Por isso, o seguro aparece duas vezes na conta: no valor do prêmio e nos juros que incidem sobre ele. O resultado aparece no CET, que é o indicador a olhar quando você compara a proposta com e sem o item.
A comparação mais honesta é pedir duas simulações da mesma operação, uma com o prestamista e outra sem, mantendo prazo, entrada e taxa. A diferença entre os totais pagos mostra o custo real da proteção, já com os juros embutidos.
Em financiamentos longos, o impacto costuma ser maior, porque o prêmio cresce com o prazo e os juros sobre ele correm por mais tempo. A idade do comprador também influencia, já que o risco de morte e invalidez aumenta com os anos.
Algumas instituições oferecem o pagamento mensal do prêmio, separado da parcela. Essa modalidade evita juros sobre o seguro e facilita o cancelamento, mas nem sempre está disponível para crédito de veículos.
Contratar ou recusar: os critérios que decidem
Não há resposta única. O que define se vale a pena é a combinação entre o tamanho da dívida, a sua situação familiar e a proteção que você já tem. Os critérios abaixo ajudam a organizar a escolha.
- Dependentes: se alguém depende da sua renda ou do carro para trabalhar, a quitação automática em caso de morte ou invalidez tem valor concreto.
- Seguro de vida existente: se você já tem uma apólice com capital suficiente para quitar o carro e ainda sobrar, o prestamista vira proteção em dobro.
- Reserva da família: quando há patrimônio ou poupança capaz de pagar o saldo sem aperto, o seguro perde importância.
- Vínculo de trabalho: a cobertura de perda de renda só faz sentido se for compatível com a sua forma de ganhar dinheiro.
- Prazo e valor: dívida pequena e curta tende a não justificar o custo; dívida grande e longa pesa mais na vida de quem fica.
Se a maioria dos critérios aponta para a proteção, o prestamista pode ser uma escolha razoável. Se eles apontam para o contrário, recusar é um direito e não deve afetar a análise do crédito.
Com a financeira ou com outra seguradora
Amarrar a liberação do crédito à compra do seguro configura venda casada, e o Código de Defesa do Consumidor não permite isso. A financeira pode oferecer, explicar e até recomendar, mas não pode recusar o crédito porque você disse não.
Também não pode obrigar você a contratar com a seguradora que ela indica. O Superior Tribunal de Justiça já firmou entendimento de que o consumidor tem liberdade para escolher a seguradora, e isso vale para o prestamista vinculado ao financiamento.
Na prática, buscar uma apólice fora costuma ser trabalhoso, porque poucas seguradoras vendem prestamista avulso para pessoa física. Uma alternativa mais acessível é contratar um seguro de vida individual com capital próximo ao saldo devedor e manter a família informada sobre ele.
Se perceber que o item foi incluído sem sua autorização, ou se o vendedor disser que a aprovação depende dele, registre o que aconteceu, peça a retirada por escrito e, se não resolver, procure o Procon ou a ouvidoria da instituição.
Guarde sempre o certificado individual do seguro. Ele identifica a seguradora responsável, as coberturas contratadas e o capital segurado, e é o documento que a família vai precisar se houver um sinistro.
Exclusões e carências que derrubam a cobertura
Ler as condições gerais é cansativo, mas é ali que estão as situações em que a seguradora não paga. As mais relevantes cabem em poucos minutos de leitura atenta.
Doenças preexistentes que o segurado conhecia e não declarou costumam ser excluídas. Se a proposta tiver uma declaração de saúde, responda com sinceridade; omitir um problema pode levar à negativa justamente no momento em que a família mais precisa.
As coberturas de desemprego e de incapacidade temporária geralmente têm carência, um período inicial em que o evento não é coberto. Também há franquia, ou seja, alguns dias de afastamento ou de desemprego antes que o seguro comece a pagar as parcelas.
Outro limite comum é o número máximo de parcelas pagas por evento e ao longo do contrato. Se a perda de emprego se repetir, a cobertura pode já estar esgotada.
Por fim, há exclusões ligadas à conduta do segurado, como atos intencionais, e prazos legais para alguns eventos. Tudo isso está descrito nas condições, que você pode pedir antes de assinar.
O que acontece se você quitar antes ou desistir
Se você antecipar a quitação do financiamento, o seguro prestamista perde o objeto, porque não há mais dívida a proteger. Quando o prêmio foi pago de forma única e financiado, a parte correspondente ao período que não será usado costuma ser restituída de forma proporcional.
Na prática, essa devolução nem sempre vem automaticamente. Ao pedir o saldo para quitação, pergunte como o seguro será tratado e confira no extrato final se o valor proporcional foi abatido ou devolvido.
Também é possível cancelar o prestamista sem quitar o carro, caso você mude de ideia ou contrate um seguro de vida que cubra o mesmo risco. O pedido costuma ser feito à seguradora ou pelo canal da financeira, e a restituição segue as regras da apólice.
Quem paga o prêmio mensalmente tem mais flexibilidade: basta cancelar e deixar de pagar dali em diante, sem cálculo de devolução.
Atenção a um detalhe frequente: ao vender o carro financiado com a quitação feita pelo comprador ou pela revenda, o seguro também deixa de ter função. Nesse caso, peça o comprovante de encerramento do contrato e acompanhe a restituição do prêmio, que costuma ficar esquecida no meio da negociação da venda.
Em caso de renegociação da dívida, confirme se o seguro continua valendo sobre o novo saldo ou se precisa ser contratado de novo, para não ficar com um contrato sem proteção sem saber.
Uma checagem curta antes de assinar a proposta
Antes de aceitar ou recusar, peça a versão da proposta sem o seguro e compare o CET das duas. Leia quais coberturas estão incluídas e veja se elas combinam com o seu tipo de renda e com a sua situação familiar.
Some à conta a proteção que você já tem, como seguro de vida e reserva financeira, e pergunte a si mesmo quem pagaria o carro se você não pudesse. Se a resposta for ninguém, o prestamista ou uma apólice de vida equivalente merece atenção.
Se decidir contratar, guarde o certificado, informe alguém da família sobre a existência dele e anote o canal para acionar. Um seguro que ninguém sabe que existe raramente é usado.
